Desculpem lá, mas há notícias que por vezes me remetem para outros séculos passados e que por esse motivo me deixam revoltado. Hoje será discutido pela Ordem dos Médicos um parecer (ver AQUI) onde se defende que há casos onde a homossexualidade é mutável, ou seja, por acção clínica o doente (sim, a homossexualidade neste caso seria tratada como doença) pode deixar de ser homossexual. Que hajam pessoas, médicos incluídos, que ainda pensem que isto é possível, eu até aceito, mas ver uma Ordem dos Médicos a discutir (ainda) este assunto é para mim algo que me deixa estupefacto e até mesmo preocupado. Esta discussão só faz sentido para quem não é homossexual, porque quem como eu nasceu a gostar de ver os homens e a excitar-se a pensar em homens (assim como um heterossexual pensa em mulheres e se excita a pensar em mulheres) não consegue acreditar que haja um tratamento que me faça gostar de mulheres. A questão poder-se-ia por - nesta forma de pensar - ao contrário, ou seja, por acção clínica tornar um heterossexual em homossexual. Pergunto aos heteros: Acham isto possível? E pronto, quase a chegarmos a 2010 ainda andamos a discutir o sexo dos anjos e ainda a própria Ordem dos Médicos anda a discutir pareceres desta natureza. Fica a notícia retirada do DN:
Médicos defendem que a homossexualidade não se altera por acção clínica. Parecer da Ordem dos Médicos, que é discutido hoje, fala, porém, em casos mutáveis.
Os psiquiatras consideram que a homossexualidade não é mutável por acção médica e recusam tratar quem lhes peça este tipo de ajuda. Uma posição diferente aquela defendida pelo parecer do Colégio de Especialidade de Psiquiatria, que hoje deverá ser aprovado (ver texto ao lado), e onde se refere que em alguns casos a orientação sexual pode ser mutável e, que os médicos não devem ignorar os pedidos de ajuda dos homossexuais.
"Se tenho à minha frente um homossexual exclusivo que não aceita esse facto e me pede para ser heterossexual digo que não há tratamento", defende Júlio Machado Vaz. Também o presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria, António Palha, não têm dúvidas que "a homossexualidade não se trata". Uma opinião reforçada por Caldas de Almeida, coordenador nacional para a Saúde Mental: "As pessoas homossexuais não deixam de o ser por causa de um tratamento com o psiquiatra".
Apesar de recusar a validade dos tratamentos, Pedro Varandas admite que ainda"há determinadas terapias de orientação comportamental que já provaram ser eficazes em algumas pessoas que sofrem com a sua homossexualidade". Isto no caso dos indivíduos insistirem num tratamento.
Filipe Nunes Vicente também não acredita em terapias de reconversão, mas sabe "que há médicos que defendem o tratamento da homossexualidade". Contudo, este psicólogo confessa que não recusa tratar "uma pessoa homossexual que se apaixone por alguém do sexo oposto" e que lhe solicite ajuda.
Ideia reforçada por Daniel Sampaio. O psicólogo considera que "a orientação sexual não é imutável", mas realça que "o médico não deve tentar mudar, deve dis-cutir, deve ajudar essa pessoa".
Já a psiquiatra Graça Cardoso é peremptória: "Não se pode fazer nada. A homossexualidade não é uma escolha. Tratar um homossexual para que o deixe de ser é o mesmo que tratar alguém por ser alto ou baixo." Para esta médica é essencial ajudar a pessoa "a viver com essa situação", para tentar evitar depressão que, em casos extremos, pode levar ao suicídio.
Existem no entanto problemas de mudança de orientação que chegam aos psiquiatras por causa das dúvidas e ansiedade que criam. "Há casos de pessoas com a sua vida formalizada, casadas e com filhos e que não conseguem conter mais essa situação. São pessoas que percebem o que se passa mas não têm armas para sobreviver às tensões sociais", explica o psiquiatra Marcelo Feio.
As dificuldades em aceitar uma mudança na orientação sexual, acontecem "tanto em homens como em mulheres", adianta o médico do Hospital Santa Maria, em Lisboa.
Da mesma forma que há pessoas que "sempre se afirmaram como homossexuais e numa fase mais tardia da sua vida fazem uma viragem para a heterossexualidade", acrescenta Marcelo Feio.